Trauma e TEPT

EMDR funciona? É possível tratar um trauma sem esquecer o que aconteceu?

A memória não precisa desaparecer para perder parte da força. Como o EMDR busca reduzir sintomas do TEPT, o que as pesquisas sustentam e o que ainda está em debate.

Cesar Coutinho, psicólogo

Por Cesar Coutinho • Psicólogo • CRP 06/223499

7 min de leitura • Publicado em 22 de setembro de 2026

Pessoa adulta sentada em poltrona acompanha com o olhar um movimento lateral durante sessão psicológica, em ambiente acolhedor com luz natural

Uma lembrança traumática pode continuar presente sem que a pessoa queira pensar nela. Sons, lugares, sensações ou situações aparentemente seguras acionam medo, tensão ou vontade de fugir. Quando o EMDR ficou conhecido por usar movimentos dos olhos, vieram junto as promessas de apagar traumas rapidamente — e essa não é uma descrição adequada do tratamento.

Resposta rápida

O EMDR tem evidências e aparece em diretrizes clínicas como tratamento para TEPT. Ele não apaga o acontecimento: o objetivo é ajudar a processar a memória para reduzir o sofrimento, o alerta, a evitação e as crenças negativas associadas a ela. A resposta varia entre pessoas, e a indicação só faz sentido depois de avaliação.

O que é EMDR?

EMDR é a sigla em inglês para Eye Movement Desensitization and Reprocessing, geralmente traduzido como dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares. É uma psicoterapia estruturada e focada em trauma, estudada principalmente no tratamento do transtorno de estresse pós-traumático.

Durante parte do processo, a pessoa dirige a atenção a aspectos de uma memória difícil enquanto acompanha uma estimulação bilateral — que pode ser movimento lateral dos olhos, sons alternados ou toques —, sempre dentro de um plano terapêutico. O EMDR não se resume a seguir o dedo do terapeuta.

O movimento bilateral é uma parte do protocolo. Avaliação, preparação, vínculo, processamento e reavaliação também são o tratamento.

EMDR realmente funciona?

Para TEPT, a resposta apoiada nas evidências disponíveis é que pode funcionar, e que é recomendado por diferentes diretrizes. O National Institute for Health and Care Excellence, do Reino Unido, inclui o EMDR entre as opções para adultos com TEPT em contextos especificados. A Organização Mundial da Saúde também o listou entre as intervenções a considerar para pessoas com TEPT. E o National Center for PTSD, dos Estados Unidos, o descreve entre as psicoterapias focadas em trauma recomendadas, ao lado da terapia de processamento cognitivo e da exposição prolongada.

Isso não significa que funcione para todas as pessoas nem da mesma maneira. Tipo e duração do trauma, segurança atual, dissociação, depressão, uso de substâncias, condições médicas, apoio social, preferência e experiência do terapeuta influenciam planejamento e resultado.

É possível tratar o trauma sem esquecer o que aconteceu?

Sim. Tratar não é esquecer. Num resultado favorável, a pessoa continua sabendo o que aconteceu, mas a recordação tende a provocar menos intensidade emocional, menos ativação no corpo e menos sensação de perigo atual. Ela passa a ser lembrada como parte do passado, sem comandar as decisões do presente. Um serviço de terapias do sistema público de saúde britânico descreve o objetivo exatamente assim: tornar as memórias mais manejáveis e menos angustiantes, não apagá-las.

O objetivo também não é tornar aceitável o que foi injusto, violento ou doloroso. Reduzir sintomas não equivale a perdoar, concordar, se reconciliar ou deixar de reconhecer responsabilidades.

O que pode mudar e o que não precisa desaparecer
Pode mudar com o tratamentoNão precisa ser apagado
A intensidade do medo e do alerta diante da lembrançaO conhecimento de que o acontecimento ocorreu
A evitação de situações seguras associadas ao passadoValores, limites e reconhecimento de responsabilidades
Crenças como “eu não tenho saída” ou “a culpa foi minha”A importância daquela experiência na sua trajetória
Sensações corporais e imagens intrusivasA escolha de falar ou não falar sobre o assunto

Como costuma acontecer uma sessão de EMDR?

Antes do processamento, o profissional avalia, compreende a história, identifica sintomas e verifica condições de segurança. A pessoa recebe explicação sobre o método e desenvolve recursos para lidar com ativação emocional. Só depois disso são definidos os alvos de trabalho e o ritmo.

  1. 1
    Avaliação e preparaçãoCompreender sintomas, história, riscos, apoio e objetivos; explicar o processo, combinar sinais de pausa e construir recursos de estabilização.
  2. 2
    ProcessamentoSelecionar uma imagem, pensamento, emoção ou sensação ligada à memória e alternar períodos de atenção a ela com estimulação bilateral.
  3. 3
    Fechamento e reavaliaçãoEncerrar de forma organizada, observar os efeitos entre sessões e revisar as mudanças no encontro seguinte.

Nem sempre é preciso narrar cada detalhe em voz alta, mas a memória não é tratada sem nenhum contato com pensamentos, emoções, imagens ou sensações relacionadas. A intensidade e o modo de aproximação devem respeitar avaliação, consentimento e capacidade de permanecer presente.

Por que movimentar os olhos ajudaria?

Uma hipótese é que dividir a atenção entre a memória e uma tarefa bilateral reduza a vividez e a carga emocional, favorecendo novas associações. Há outras explicações propostas, ligadas a mudanças na ativação fisiológica e a processos de memória de trabalho.

Ainda existe debate sobre quanto do efeito depende especificamente dos movimentos oculares e quanto vem de outros elementos — contato com a memória, atenção, vínculo, preparação e reorganização de significados. Reconhecer essa incerteza não invalida os resultados clínicos do protocolo completo; apenas impede a simplificação de que o olho é que cura.

O que se diz por aí e o que se sustenta
Circula como verdadeO que se sustenta
EMDR é só mexer os olhosÉ um protocolo com avaliação, preparação, processamento, fechamento e reavaliação
A técnica apaga a memóriaO objetivo é reduzir sofrimento e interferência, não eliminar a lembrança
A pessoa entra em transe e perde o controleEla permanece consciente, participa do processo e pode pedir pausa
Se funciona para TEPT, serve para qualquer problemaA evidência é mais consolidada para TEPT; outras indicações exigem avaliação própria

O que o relato do príncipe Harry ajuda a entender

Numa série sobre saúde mental exibida em 2021, o príncipe Harry mostrou parte de uma sessão de EMDR em que trabalhava lembranças e emoções relacionadas à morte da mãe, quando ele tinha 12 anos. Em vez de acompanhar um movimento com os olhos, ele usou toques alternados no próprio corpo como estimulação bilateral. O episódio foi analisado pelo jornal The Guardian em maio de 2021.

Não cabe a este texto comentar o caso dele, e nada aqui é avaliação de ninguém. A exposição pública aumentou a curiosidade pelo método e ajudou a mostrar que procurar terapia não depende de posição social. Mas a experiência de uma pessoa conhecida não demonstra eficácia científica e não diz qual tratamento é indicado para outra pessoa.

Limites, cuidados e escolha do profissional

Uma boa indicação começa por avaliação, não pela venda de uma técnica. É preciso verificar se existe TEPT ou outra necessidade, se o perigo já terminou, quais recursos de apoio existem e se há condições que exigem adaptação, estabilização ou cuidado conjunto.

Perguntas úteis antes de começar

  • Qual é a formação do profissional em EMDR e em avaliação de trauma?
  • Por que essa abordagem está sendo indicada para o meu caso?
  • Quais alternativas baseadas em evidências também poderiam ser consideradas?
  • Como serão feitas preparação, consentimento, pausas e fechamento das sessões?
  • Como o profissional lida com dissociação, risco, uso de substâncias e outras condições associadas?
  • Como o progresso e a necessidade de ajustar o plano serão acompanhados?

E o EMDR não é a única opção eficaz: terapia de processamento cognitivo, exposição prolongada e outras psicoterapias focadas em trauma aparecem nas mesmas diretrizes. Preferências, disponibilidade, segurança, vínculo e características clínicas participam da decisão.

Tratar uma memória não é apagá-la. É permitir que ela ocupe um lugar no passado sem continuar comandando o presente.

Perguntas frequentes

Como este conteúdo foi elaborado

Texto educativo baseado em material do National Center for PTSD do Departamento de Assuntos de Veteranos dos Estados Unidos, nas diretrizes da American Psychological Association e do National Institute for Health and Care Excellence do Reino Unido, em comunicado da Organização Mundial da Saúde e em material de um serviço de terapias do sistema público de saúde britânico. Fontes consultadas em 22 de setembro de 2026. Esta publicação não oferece EMDR como serviço. A menção a uma declaração pública é factual, com data e veículo, e não constitui avaliação da pessoa citada.

Fontes

  1. Eye Movement Desensitization and Reprocessing for PTSD — National Center for PTSD (acesso em 22/09/2026)
  2. EMDR for PTSD — Patient Decision Aid — National Center for PTSD (acesso em 22/09/2026)
  3. Overview of Psychotherapy for PTSD — National Center for PTSD (acesso em 22/09/2026)
  4. Clinical Practice Guideline for the Treatment of Posttraumatic Stress Disorder in Adults — American Psychological Association (acesso em 22/09/2026)
  5. Post-traumatic stress disorder — Recommendations — National Institute for Health and Care Excellence (acesso em 22/09/2026)
  6. WHO releases guidance on mental health care after trauma — Organização Mundial da Saúde (acesso em 22/09/2026)
  7. Eye movement desensitisation and reprocessing — Berkshire Healthcare NHS Foundation Trust (acesso em 22/09/2026)
  8. EMDR: what is the trauma therapy used by Prince Harry? — The Guardian (acesso em 22/09/2026)
  9. Ligue 188 — Centro de Valorização da Vida (acesso em 22/09/2026)

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Cesar Coutinho

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Cesar Coutinho é psicólogo, CRP 06/223499, com atuação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atende presencialmente em Indaiatuba-SP e on-line para todo o Brasil e para brasileiros que vivem no exterior.

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