Saúde emocional

Por que os homens aparecem menos nas estatísticas de depressão — e mais nas de suicídio

Diagnóstico menor e mortalidade maior não descrevem sofrimento menor. Descrevem reconhecimento tardio.

Cesar Coutinho, psicólogo

Por Cesar Coutinho • Psicólogo • CRP 06/223499

6 min de leitura • Publicado em 24 de setembro de 2026 • Atualizado em 24 de setembro de 2026

Homem adulto sentado sozinho nos bastidores de um teatro depois da apresentação, com o palco iluminado ao fundo.

Poucos homens chegam ao consultório dizendo que estão deprimidos. Chegam dizendo que não dormem, que estão explodindo com todo mundo, que o trabalho rendeu menos, que alguma coisa dói e os exames não mostram nada.

Resposta direta

No Vigitel 2023, 7,1% dos homens adultos das capitais brasileiras relataram diagnóstico médico de depressão, contra 16,8% das mulheres — menos da metade. Em 2021, segundo o Ministério da Saúde, 77,8% dos 15.507 suicídios registrados no país foram de homens. Uma medida cai e a outra sobe. A leitura compatível com as duas não é que homens sofram menos, e sim que o sofrimento deles chega menos ao registro, ao diagnóstico e ao cuidado.

Cesar Coutinho, psicólogo clínico em Indaiatuba — CRP 06/223499
Cesar Coutinho Psicólogo clínico — CRP 06/223499, Indaiatuba (SP)

Trabalho com homens que descobriram, já adultos, que nunca tiveram vocabulário para dizer o que sentiam — só para dizer o que estavam fazendo a respeito.

Duas medidas que apontam para lados opostos

O Vigitel é um inquérito telefônico do Ministério da Saúde feito com adultos de 18 anos ou mais nas 26 capitais e no Distrito Federal. Ele não mede quem tem depressão: mede quem responde que algum médico já comunicou esse diagnóstico. Na edição de 2023, o resultado do conjunto das 27 cidades foi 12,3%, sendo 16,8% entre mulheres e 7,1% entre homens.

O Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde que analisou os suicídios de 2010 a 2021 registrou 15.507 mortes por suicídio em 2021, das quais 77,8% no sexo masculino. No mesmo levantamento, o suicídio respondeu por 1,2% de todas as mortes de homens e 0,4% das mortes de mulheres — três vezes mais.

Um indicador diz que os homens adoecem menos. O outro diz que morrem mais. Só um dos dois depende de alguém ter procurado ajuda.

A distância no diagnóstico é maior que a distância na estimativa

A Organização Mundial da Saúde estima que, em 2023, 5,2% dos adultos do mundo viviam com depressão: 4,1% entre homens e 6,2% entre mulheres. Nessa estimativa, a diferença entre os sexos é de cerca de uma vez e meia. No diagnóstico referido das capitais brasileiras, a diferença é de quase duas vezes e meia.

Ainda assim, a hipótese mais simples compatível com os dois conjuntos é que parte da distância brasileira não esteja em quem adoece, e sim em quem chega a ser diagnosticado.

Em homens, a depressão costuma ser lida como outra coisa

Irritabilidade constante, explosões desproporcionais, aumento do consumo de álcool, comportamento de risco, dores sem causa encontrada, refúgio no excesso de trabalho. Nada disso é sintoma exclusivamente masculino, e não existe uma lista oficial de sintomas de depressão para homens.

O que se observa é outra coisa: essas formas de expressar sofrimento costumam ser socialmente mais toleradas em homens do que dizer que se está triste — e são justamente as que menos se parecem com a imagem corrente de depressão. Quem convive vê um homem estourado ou bebendo demais, não um homem adoecido.

  • O que é vistoMau humor, pavio curto, distanciamento da família, bebida, trabalho sem fim, pressa.
  • O que raramente é ditoQue perdeu a vontade de tudo, que não sente prazer no que gostava, que se sente um peso.
  • Onde os dois se encontramNa mudança de padrão. O ponto não é o traço isolado, mas há quanto tempo aquilo está diferente e quanto está custando.

O pico não está na juventude

O mesmo boletim do Ministério da Saúde registra que, entre homens, as taxas de suicídio aumentam progressivamente com a idade e atingem o pico depois dos 70 anos, com 18,1 óbitos por 100 mil habitantes.

É a faixa em que se acumulam aposentadoria, perda de papel social, viuvez, adoecimento físico e encolhimento da rede de convivência — e é também a faixa que menos aparece nas campanhas. O homem idoso deprimido raramente é descrito como deprimido: é descrito como rabugento, ou como alguém que está ficando velho.

O que costuma fazer um homem procurar ajuda

Na prática, raramente é o argumento de que precisa se cuidar. Costuma ser algo concreto que quebrou: o sono que não volta, o desempenho que caiu, a relação que está acabando, o filho que parou de falar com ele, um susto de saúde.

Isso não é um defeito a ser corrigido. É uma porta de entrada. Um primeiro encontro que comece pelo problema concreto, com objetivo declarado e prazo para revisão, costuma ser mais aceitável do que um convite aberto para falar de sentimentos.

Vale registrar o tamanho do problema: a OMS estima que, mesmo em países de alta renda, apenas cerca de um terço das pessoas com depressão recebe cuidado em saúde mental. A barreira não é só masculina — mas incide sobre quem já tende a demorar mais a pedir.

Quando procurar um profissional

  • Humor deprimido ou perda de interesse na maior parte do dia, quase todos os dias, por duas semanas ou mais.
  • Mudança persistente de sono, apetite, energia ou concentração.
  • Irritabilidade ou raiva fora do padrão habitual, com prejuízo em casa ou no trabalho.
  • Aumento do consumo de álcool ou de outras substâncias para conseguir funcionar ou dormir.
  • Afastamento de pessoas com quem antes convivia sem esforço.
  • Pensamentos de que a vida não vale a pena, ou de morte.

Perguntas frequentes

Como este conteúdo foi elaborado

Texto educativo produzido a partir do Vigitel Brasil 2023, do Ministério da Saúde; do Boletim Epidemiológico volume 55, número 4, de 6 de fevereiro de 2024, que analisou suicídios e lesões autoprovocadas de 2010 a 2021; e da ficha técnica sobre transtorno depressivo da Organização Mundial da Saúde, com dados de 2023. Todas as fontes foram consultadas em 24/09/2026. Seguindo recomendação da OPAS/OMS para divulgação responsável, não são descritos métodos de autolesão ou suicídio. O conteúdo não realiza diagnóstico, não prescreve medicamentos e não substitui avaliação médica ou psicológica.

Fontes

  1. Vigitel Brasil 2023: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico — Ministério da Saúde
  2. Panorama dos suicídios e lesões autoprovocadas no Brasil de 2010 a 2021 — Boletim Epidemiológico vol. 55, nº 4 — Ministério da Saúde
  3. Depressive disorder (depression) — Organização Mundial da Saúde
  4. Suicídio (Prevenção) — Ministério da Saúde

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Psicólogo clínico, CRP 06/223499. Atende em Indaiatuba e on-line, em Terapia Cognitivo-Comportamental.

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