Poucos homens chegam ao consultório dizendo que estão deprimidos. Chegam dizendo que não dormem, que estão explodindo com todo mundo, que o trabalho rendeu menos, que alguma coisa dói e os exames não mostram nada.
No Vigitel 2023, 7,1% dos homens adultos das capitais brasileiras relataram diagnóstico médico de depressão, contra 16,8% das mulheres — menos da metade. Em 2021, segundo o Ministério da Saúde, 77,8% dos 15.507 suicídios registrados no país foram de homens. Uma medida cai e a outra sobe. A leitura compatível com as duas não é que homens sofram menos, e sim que o sofrimento deles chega menos ao registro, ao diagnóstico e ao cuidado.
Trabalho com homens que descobriram, já adultos, que nunca tiveram vocabulário para dizer o que sentiam — só para dizer o que estavam fazendo a respeito.
Conheça a trajetóriaDuas medidas que apontam para lados opostos
O Vigitel é um inquérito telefônico do Ministério da Saúde feito com adultos de 18 anos ou mais nas 26 capitais e no Distrito Federal. Ele não mede quem tem depressão: mede quem responde que algum médico já comunicou esse diagnóstico. Na edição de 2023, o resultado do conjunto das 27 cidades foi 12,3%, sendo 16,8% entre mulheres e 7,1% entre homens.
O Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde que analisou os suicídios de 2010 a 2021 registrou 15.507 mortes por suicídio em 2021, das quais 77,8% no sexo masculino. No mesmo levantamento, o suicídio respondeu por 1,2% de todas as mortes de homens e 0,4% das mortes de mulheres — três vezes mais.
Um indicador diz que os homens adoecem menos. O outro diz que morrem mais. Só um dos dois depende de alguém ter procurado ajuda.
A distância no diagnóstico é maior que a distância na estimativa
A Organização Mundial da Saúde estima que, em 2023, 5,2% dos adultos do mundo viviam com depressão: 4,1% entre homens e 6,2% entre mulheres. Nessa estimativa, a diferença entre os sexos é de cerca de uma vez e meia. No diagnóstico referido das capitais brasileiras, a diferença é de quase duas vezes e meia.
Ainda assim, a hipótese mais simples compatível com os dois conjuntos é que parte da distância brasileira não esteja em quem adoece, e sim em quem chega a ser diagnosticado.
Em homens, a depressão costuma ser lida como outra coisa
Irritabilidade constante, explosões desproporcionais, aumento do consumo de álcool, comportamento de risco, dores sem causa encontrada, refúgio no excesso de trabalho. Nada disso é sintoma exclusivamente masculino, e não existe uma lista oficial de sintomas de depressão para homens.
O que se observa é outra coisa: essas formas de expressar sofrimento costumam ser socialmente mais toleradas em homens do que dizer que se está triste — e são justamente as que menos se parecem com a imagem corrente de depressão. Quem convive vê um homem estourado ou bebendo demais, não um homem adoecido.
- O que é vistoMau humor, pavio curto, distanciamento da família, bebida, trabalho sem fim, pressa.
- O que raramente é ditoQue perdeu a vontade de tudo, que não sente prazer no que gostava, que se sente um peso.
- Onde os dois se encontramNa mudança de padrão. O ponto não é o traço isolado, mas há quanto tempo aquilo está diferente e quanto está custando.
O pico não está na juventude
O mesmo boletim do Ministério da Saúde registra que, entre homens, as taxas de suicídio aumentam progressivamente com a idade e atingem o pico depois dos 70 anos, com 18,1 óbitos por 100 mil habitantes.
É a faixa em que se acumulam aposentadoria, perda de papel social, viuvez, adoecimento físico e encolhimento da rede de convivência — e é também a faixa que menos aparece nas campanhas. O homem idoso deprimido raramente é descrito como deprimido: é descrito como rabugento, ou como alguém que está ficando velho.
O que costuma fazer um homem procurar ajuda
Na prática, raramente é o argumento de que precisa se cuidar. Costuma ser algo concreto que quebrou: o sono que não volta, o desempenho que caiu, a relação que está acabando, o filho que parou de falar com ele, um susto de saúde.
Isso não é um defeito a ser corrigido. É uma porta de entrada. Um primeiro encontro que comece pelo problema concreto, com objetivo declarado e prazo para revisão, costuma ser mais aceitável do que um convite aberto para falar de sentimentos.
Vale registrar o tamanho do problema: a OMS estima que, mesmo em países de alta renda, apenas cerca de um terço das pessoas com depressão recebe cuidado em saúde mental. A barreira não é só masculina — mas incide sobre quem já tende a demorar mais a pedir.
Quando procurar um profissional
- Humor deprimido ou perda de interesse na maior parte do dia, quase todos os dias, por duas semanas ou mais.
- Mudança persistente de sono, apetite, energia ou concentração.
- Irritabilidade ou raiva fora do padrão habitual, com prejuízo em casa ou no trabalho.
- Aumento do consumo de álcool ou de outras substâncias para conseguir funcionar ou dormir.
- Afastamento de pessoas com quem antes convivia sem esforço.
- Pensamentos de que a vida não vale a pena, ou de morte.
Perguntas frequentes
As estimativas e os diagnósticos registrados são menores entre homens, mas indicadores de mortalidade apontam no sentido oposto. Registro menor não equivale a sofrimento menor.
Porque o Vigitel mede diagnóstico médico referido. Quem nunca procurou, nunca foi avaliado ou não recebeu o diagnóstico não entra nesse número.
Não há uma lista oficial separada por sexo. O que muda com frequência é a forma de expressar: irritabilidade, risco, álcool e queixas físicas aparecem mais do que o relato de tristeza.
Pode ser uma das formas de tentar suportar o quadro, e merece avaliação. Sozinho, não fecha diagnóstico nenhum.
O boletim do Ministério da Saúde mostra taxas que crescem com a idade entre homens, com pico após os 70 anos. Perdas acumuladas, adoecimento e isolamento fazem parte do contexto.
Costuma funcionar melhor partir do problema concreto que ele reconhece — sono, trabalho, relação — do que do convite genérico para falar de sentimentos.
Como este conteúdo foi elaborado
Texto educativo produzido a partir do Vigitel Brasil 2023, do Ministério da Saúde; do Boletim Epidemiológico volume 55, número 4, de 6 de fevereiro de 2024, que analisou suicídios e lesões autoprovocadas de 2010 a 2021; e da ficha técnica sobre transtorno depressivo da Organização Mundial da Saúde, com dados de 2023. Todas as fontes foram consultadas em 24/09/2026. Seguindo recomendação da OPAS/OMS para divulgação responsável, não são descritos métodos de autolesão ou suicídio. O conteúdo não realiza diagnóstico, não prescreve medicamentos e não substitui avaliação médica ou psicológica.
Fontes
- Vigitel Brasil 2023: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico — Ministério da Saúde
- Panorama dos suicídios e lesões autoprovocadas no Brasil de 2010 a 2021 — Boletim Epidemiológico vol. 55, nº 4 — Ministério da Saúde
- Depressive disorder (depression) — Organização Mundial da Saúde
- Suicídio (Prevenção) — Ministério da Saúde
