Saúde emocional

Doomscrolling: por que você não consegue parar de consumir notícias ruins?

A meta raramente é sentir prazer. É reduzir incerteza — e o feed foi desenhado para que essa redução nunca termine.

Cesar Coutinho, psicólogo clínico em Indaiatuba

Por Cesar Coutinho • Psicólogo • CRP 06/223499

4 min de leitura • Publicado em 24 de setembro de 2026 • Atualizado em 24 de setembro de 2026

Pessoa adulta guardando o celular em uma gaveta e abrindo a janela do quarto ao amanhecer, com a cidade ao fundo.

Você abre o telefone para confirmar uma notícia. Encontra uma atualização, depois outra, um vídeo, uma previsão pior. Vinte minutos depois sabe mais detalhes e se sente menos capaz de desligar.

Resposta direta

Doomscrolling é o consumo repetitivo de conteúdo negativo, mesmo quando ele piora o estado emocional. A pessoa busca uma atualização que traga controle ou encerramento, e o feed infinito oferece novidade imprevisível, mantendo a ameaça sempre aberta. Estudos associam o comportamento a mais sofrimento e pior bem-estar, mas a direção pode ser dupla: quem já está pior também procura mais conteúdo negativo. A saída não é ignorar o mundo — é transformar consumo automático em rotina intencional.

A atenção humana prioriza ameaça

Informação de perigo tem valor de sobrevivência e captura atenção. Em crises reais, acompanhar notícias é útil e às vezes necessário — isso não é defeito de caráter.

O problema aparece quando o sistema fica sem critério de conclusão. Cada atualização promete fechar a lacuna e abre duas novas perguntas.

O feed não oferece um ponto natural de parada

Rolagem infinita, notificação e novidade imprevisível eliminam os sinais de encerramento que um jornal impresso ou um telejornal tinham por construção. A próxima publicação sempre pode ser a informação decisiva.

O ambiente foi desenhado para prolongar atenção. Mudar o ambiente é estratégia, não fraqueza.

O que os estudos encontram?

A pesquisa sobre o tema é recente. A escala mais usada foi desenvolvida em 2023 por Satici e colaboradores, em três estudos com 378, 419 e 460 participantes, e associou doomscrolling a traços de personalidade, uso problemático de redes, medo de ficar por fora e indicadores de bem-estar.

A leitura mais honesta é de ciclo: mal-estar leva ao conteúdo, e o conteúdo amplia o mal-estar. Nenhum dos dois é causa única.

Você está se informando ou tentando regular uma emoção?

Quatro perguntas que separam as duas coisas

  1. 1Existe alguma decisão minha que depende desta atualização?
  2. 2A fonte que estou lendo agora é confiável?
  3. 3Aprendi algo novo nos últimos dez minutos?
  4. 4Eu consigo parar no horário que combinei comigo mesmo?

Quando a resposta é sempre “só mais uma”, a busca já saiu do campo da informação e entrou no da tentativa de neutralizar medo — que é onde ela deixa de funcionar.

Limites não exigem alienação

Escolha uma ou duas fontes, defina horários, desative alertas não essenciais e tire a notícia da cama. Prefira boletins que terminam a feeds que não terminam.

Depois, faça uma ação concreta compatível com os seus valores: conversar, doar, planejar, votar, descansar. Ação fecha ciclos que informação repetida deixa abertos.

Quando procurar ajuda?

Procure apoio quando o padrão prejudica sono, trabalho e relações, provoca crises frequentes ou se mistura a depressão, ansiedade intensa e desesperança.

A terapia pode trabalhar intolerância à incerteza, ruminação e hábitos — sem transformar o afastamento total das notícias na única solução disponível.

Perguntas frequentes

Como este conteúdo foi elaborado

Texto educativo produzido a partir do desenvolvimento da Escala de Doomscrolling por Satici e colaboradores (2023), do estudo de Taskin e colaboradores sobre doomscrolling e bem-estar mental em usuários de redes sociais (Journal of Community Psychology, 2024) e do estudo de Shabahang e colaboradores sobre doomscrolling e ansiedade existencial (Computers in Human Behavior Reports, 2024), consultados em 24/09/2026. O conteúdo não realiza diagnóstico, não prescreve medicamentos e não substitui avaliação médica ou psicológica.

Fontes

  1. Doomscrolling Scale: its Association with Personality Traits, Psychological Distress, Social Media Use, and Wellbeing (Satici S. A. et al., 2023) — Applied Research in Quality of Life (acesso em 24/09/2026)
  2. Doomscrolling and mental well-being in social media users: A serial mediation through mindfulness and secondary traumatic stress (Taskin S. et al., Journal of Community Psychology, 2024) — Journal of Community Psychology (acesso em 24/09/2026)
  3. Doomscrolling evokes existential anxiety and fosters pessimism about human nature (Shabahang R. et al., Computers in Human Behavior Reports, 2024) — Computers in Human Behavior Reports (acesso em 24/09/2026)

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Cesar Coutinho, psicólogo clínico em Indaiatuba — CRP 06/223499

Cesar Coutinho

Psicólogo • CRP 06/223499

Psicólogo clínico, CRP 06/223499. Atende em Indaiatuba e on-line, em Terapia Cognitivo-Comportamental.

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