Em 25 de setembro de 2026, o governo publicou a Medida Provisória 1.394, que proíbe as apostas de quota fixa no Brasil, as chamadas bets. Os sites começaram a sair do ar em 6 de outubro, e as autorizações das empresas foram extintas em 25 de outubro, 30 dias depois da publicação. Para muita gente, foi um alívio. Para quem tinha perdido o controle, ficou uma pergunta difícil: o site fechou, mas e a vontade de apostar, vai embora junto?
Este texto, escrito pelo psicólogo Cesar Coutinho a partir de fontes conferidas em 26 de outubro de 2026, explica o que a medida muda, o que ela não resolve sozinha, o que os estudos mostram sobre o tratamento do jogo problemático e onde procurar ajuda, inclusive de graça, pelo SUS. Ele serve para quem aposta e para quem convive com alguém que aposta.
Nem sempre. Tirar o acesso ajuda, e a Organização Mundial da Saúde recomenda restringir a oferta para reduzir danos. Mas o jogo problemático é um padrão de comportamento aprendido: a vontade, a dívida e os conflitos em casa não saem do ar com o site. A terapia cognitivo-comportamental tem os melhores resultados nos estudos, e o SUS oferece teleatendimento gratuito pelo aplicativo Meu SUS Digital.
O que a medida provisória das bets mudou?
A MP 1.394/2026 proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa, tanto sobre eventos esportivos quanto sobre jogos virtuais on-line, segundo o resumo oficial da Consultoria Legislativa do Senado. A proibição alcança também empresas sediadas no exterior que atendem pessoas no Brasil e as bets autorizadas por estados.
O calendário foi curto. Novos depósitos ficaram proibidos durante a transição, a publicidade teve dez dias para sair do ar, os sites começaram a ser desligados em 6 de outubro e as autorizações vigentes foram extintas 30 dias depois da publicação, em 25 de outubro. A Secretaria de Prêmios e Apostas estimou que cerca de 23 milhões de apostadores tinham dinheiro nas plataformas, e o governo previu a devolução de cerca de R$ 1,7 bilhão pelos bancos. Até o fim de setembro, os ministérios da Justiça e da Fazenda já tinham pedido o bloqueio de 5.209 endereços ligados a apostas ilegais.
Na exposição de motivos da medida, o governo associa o jogo problemático a ansiedade, depressão, isolamento social, endividamento e aumento do risco de suicídio. A MP já está valendo, mas ainda precisa ser votada pelo Congresso Nacional e perde a validade se não for aprovada no prazo da Constituição.
Se o site saiu do ar, a vontade de apostar passa?
Para quem apostava de vez em quando, provavelmente sim: sem o aplicativo no bolso, o hábito tende a perder força. Para quem já tinha perdido o controle, nem sempre, e é importante saber disso para não se culpar. A Organização Mundial da Saúde descreve o transtorno do jogo, na CID-11, com três marcas: controle prejudicado sobre o jogo, prioridade crescente dada às apostas, acima de outros interesses e da rotina, e continuar jogando apesar das consequências negativas.
Esse padrão é aprendido ao longo de meses de repetição. Ele se liga a horários, ao celular, ao jogo de futebol na televisão, ao fim do expediente, ao tédio, à ansiedade e à ideia de que a próxima aposta vai recuperar o que foi perdido. Quando a porta fecha, os gatilhos continuam lá. Nos primeiros dias, é comum o impulso procurar a saída antiga: a mão que vai ao celular sem pensar, a inquietação no horário em que a aposta acontecia, a irritação.
Há ainda um risco prático. A própria OMS lembra que o jogo on-line é acessível quase em qualquer lugar, mesmo onde é proibido. Os 5.209 endereços bloqueados até setembro mostram que sites ilegais continuam tentando aparecer. Para quem está vulnerável, a proibição reduz o caminho, mas não fecha todos os atalhos.
O site fecha. O hábito, a dívida e a conversa que ainda não aconteceu em casa continuam abertos.
Quanta gente está nessa situação no Brasil?
Não há, até agora, um número oficial de brasileiros com transtorno do jogo, mas há sinais claros de que muita gente pediu ajuda para parar. A Plataforma Centralizada de Autoexclusão, lançada pelo governo em dezembro de 2025, permite bloquear com o CPF, de uma só vez, o acesso a todas as casas de apostas autorizadas. Segundo o Ministério da Saúde, em agosto de 2026 mais de 1 milhão de pessoas já tinham pedido a autoexclusão, e 35% delas apontaram a perda de controle sobre o jogo como motivo.
No mundo, a OMS estima que 1,2% dos adultos tenham transtorno do jogo e que cerca de 11,9% dos homens e 5,5% das mulheres sofram algum nível de dano por causa de apostas. O dano não fica só com quem aposta: para cada pessoa que joga em nível de alto risco, em média outras seis são afetadas, quase sempre familiares.
O que os estudos mostram sobre o tratamento?
A terapia cognitivo-comportamental é a abordagem com melhores resultados, segundo a revisão mais citada sobre o tema. Em 2012, a Colaboração Cochrane, rede internacional que revisa ensaios clínicos, publicou a análise de Shane Cowlishaw e colegas: 14 estudos randomizados, com 1.245 pessoas com jogo problemático ou patológico.
Nos 11 estudos que compararam a TCC a grupos de controle, a terapia reduziu a gravidade dos sintomas com efeito muito grande (diferença média padronizada de −1,82) e a perda de dinheiro com o jogo com efeito médio (−0,52), avaliadas até três meses depois do tratamento. A entrevista motivacional, uma abordagem mais breve, reduziu a perda financeira com efeito menor (−0,41).
A mesma revisão é honesta sobre os limites. Só um estudo, com 147 pessoas, comparou os grupos de 9 a 12 meses depois, e ali a diferença foi menor e não significativa. Os autores classificaram a qualidade das evidências entre muito baixa e baixa e concluíram que a TCC funciona logo após o tratamento, mas que a duração do ganho ainda é desconhecida. Em 2024, a OMS reafirmou que as abordagens mais eficazes hoje são a TCC de longo prazo e a entrevista motivacional.
| O que se costuma dizer | O que as fontes mostram | O que não dá para afirmar |
|---|---|---|
| Sem as bets, o problema acaba | A OMS recomenda restringir acesso e oferta para reduzir danos, mas lembra que o jogo on-line chega mesmo onde é proibido | Que a proibição, sozinha, trate quem já perdeu o controle |
| Parar é questão de força de vontade | A CID-11 descreve o transtorno do jogo como controle prejudicado sobre o comportamento (OMS) | Que toda pessoa que aposta tenha um transtorno |
| Terapia não resolve vício em aposta | Em 11 estudos, a TCC reduziu a gravidade dos sintomas com efeito muito grande até três meses depois (Cochrane, 2012) | Quanto tempo o ganho dura; só um estudo acompanhou 9 a 12 meses |
| É um problema só de quem aposta | Para cada pessoa em alto risco, em média seis outras são afetadas (OMS) | O tamanho exato do dano em cada família |
Como a terapia ajuda quem quer parar de apostar?
A TCC trabalha com o que mantém o comportamento no dia a dia, e não só com a decisão de parar. Em geral, o tratamento combina alguns passos que a pessoa aprende a usar sozinha.
- 1Mapear os gatilhosIdentificar horários, lugares, emoções e situações em que a vontade aparece, como o fim do jogo de futebol, o tédio da noite ou uma discussão.
- 2Rever as crenças do jogoQuestionar ideias comuns em quem aposta, como a de que dá para recuperar o que foi perdido, de que uma sequência de derrotas anuncia uma vitória ou de que existe método para ganhar.
- 3Treinar outra respostaCriar barreiras práticas, adiar o impulso, ocupar os horários de risco, planejar o que fazer quando a vontade vier e prevenir recaídas, que podem acontecer e fazem parte do processo.
Quando há dívida, a conversa sobre dinheiro entra no tratamento, com organização do orçamento e, se preciso, apoio de alguém de confiança para controlar o acesso aos cartões por um tempo. Quando há ansiedade ou depressão junto, elas também são tratadas, porque costumam alimentar o ciclo.
O que fazer nos primeiros dias sem apostar?
Os primeiros dias pedem menos heroísmo e mais estrutura. Algumas medidas simples reduzem as chances de recaída.
Para atravessar os primeiros dias
- Pedir a autoexclusão do CPF, se ainda não pediu, e apagar aplicativos e atalhos de apostas do celular.
- Desconfiar de qualquer site ou perfil que ofereça apostas agora: as empresas autorizadas deixaram de existir.
- Planejar os horários em que você costumava apostar, com outra atividade marcada e, se possível, alguém por perto.
- Contar para uma pessoa de confiança o que está acontecendo, inclusive sobre as dívidas.
- Não tentar recuperar o dinheiro perdido com empréstimos, outros jogos ou investimentos arriscados.
- Reparar nas emoções que vêm junto da vontade, como ansiedade, tédio ou tristeza: elas também precisam de cuidado.
- Procurar ajuda profissional se a vontade continuar forte ou se você perceber que voltou a apostar.
E se quem aposta é alguém da minha família?
A família costuma sofrer junto, muitas vezes em silêncio. Dívidas escondidas, mentiras sobre o dinheiro e promessas de parar que não se cumprem desgastam a confiança. A raiva é compreensível, mas o julgamento tende a afastar quem precisa de ajuda: a OMS aponta a vergonha e o estigma como barreiras que impedem as pessoas de procurar tratamento.
Ajuda falar do comportamento, e não da pessoa: em vez de chamar de viciado, descrever o que aconteceu e o que preocupa. Também ajuda proteger as finanças da casa, combinar limites claros e oferecer companhia para buscar atendimento. O teleatendimento do SUS para apostas aceita pedidos feitos para um familiar, e quem convive com o problema também pode, e muitas vezes deve, buscar terapia para si.
Onde procurar ajuda, inclusive de graça?
Desde 4 de agosto de 2026, o Ministério da Saúde oferece até 100 mil teleatendimentos por mês para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas. O acesso é pelo aplicativo Meu SUS Digital, com a conta gov.br: em Miniapps, escolha Agora Tem Especialistas em Saúde Mental para Quem Aposta, faça o autoteste e siga para o agendamento. Dá para indicar se o atendimento é para você ou para um familiar.
Segundo o ministério, as consultas psicológicas são por videochamada, duram cerca de 50 minutos e acontecem, de preferência, uma vez por semana, num ciclo inicial de até dez sessões, seguido de reavaliação. O serviço funciona como porta de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial, que inclui os CAPS. A Plataforma Centralizada de Autoexclusão continua disponível no site do Ministério da Fazenda.
Quando procurar ajuda?
Vale procurar ajuda se você pensa em apostar a maior parte do dia, se já tentou parar e não conseguiu, se esconde o quanto aposta, se pegou dinheiro emprestado ou deixou de pagar contas por causa do jogo, se a vontade continua forte mesmo sem os sites ou se o assunto virou motivo de briga em casa. Não é preciso estar no fundo do poço para começar.
Se a dívida ou a culpa trouxerem pensamentos de morte, não espere: ligue 188 (CVV), gratuito e 24 horas, ou procure um pronto-socorro. Falar sobre isso salva vidas.

Comentário do psicólogo
A proibição tira a ferramenta da mão, e isso ajuda. Mas quem perdeu o controle aprendeu um caminho, e o caminho não some de um dia para o outro. Recair não é fracasso: é informação sobre onde o tratamento precisa chegar.
Cesar Coutinho, psicólogo clínico (CRP 06/223499), com atuação em Terapia Cognitivo-Comportamental em Indaiatuba-SP e on-line.
Perguntas frequentes
Publicada em 25 de setembro de 2026, a medida proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa no Brasil. Os sites começaram a sair do ar em 6 de outubro e as autorizações foram extintas 30 dias após a publicação, em 25 de outubro. A MP ainda precisa ser votada pelo Congresso.
Para quem apostava de vez em quando, tende a diminuir. Para quem perdeu o controle, nem sempre: o hábito está ligado a horários, emoções e ao celular, e esses gatilhos continuam. Por isso a proibição ajuda, mas não substitui o tratamento.
Tem. Numa revisão Cochrane de 2012 com 14 estudos e 1.245 pessoas, a terapia cognitivo-comportamental reduziu a gravidade dos sintomas e a perda de dinheiro até três meses após o tratamento. Ainda faltam estudos sobre quanto tempo o ganho dura.
Pelo aplicativo Meu SUS Digital, com a conta gov.br: em Miniapps, Agora Tem Especialistas em Saúde Mental para Quem Aposta. Há autoteste e teleatendimento psicológico por videochamada. Os CAPS da Rede de Atenção Psicossocial também atendem.
É um bloqueio feito com o CPF na Plataforma Centralizada de Autoexclusão, do Ministério da Fazenda, que impede o acesso a todas as casas de apostas autorizadas. Mais de 1 milhão de pessoas já tinham pedido o bloqueio em agosto de 2026.
Fale do comportamento, sem rótulos, proteja as finanças da casa, combine limites e ofereça companhia para buscar atendimento. O teleatendimento do SUS aceita pedidos feitos para um familiar, e quem convive com o problema também pode buscar terapia.
Recaída é comum e não significa fracasso. Ela mostra quais situações ainda são de risco. Retome o plano, conte para alguém de confiança e procure ajuda profissional. Se surgirem pensamentos de morte, ligue 188 (CVV).
Como este conteúdo foi elaborado
Texto educativo do psicólogo Cesar Coutinho, baseado em fontes conferidas em 26 de outubro de 2026: o resumo da MP 1.394/2026 feito pela Consultoria Legislativa do Senado Federal; a reportagem da Agência Brasil de 6 de outubro de 2026 sobre o calendário de saída do ar; a nota do Ministério da Saúde, pela Agência Gov, sobre o teleatendimento no Meu SUS Digital (agosto de 2026); a ficha informativa da Organização Mundial da Saúde sobre jogos de apostas; e a revisão Cochrane de Cowlishaw e colegas (2012). As imagens da publicação foram criadas por composição digital e não retratam pessoas reais, exceto a foto do autor. Não é diagnóstico nem substitui avaliação profissional, orientação jurídica ou financeira.
Fontes
- Sumário da Medida Provisória nº 1.394, de 2026 (proibição das apostas de quota fixa) — Senado Federal — Consultoria Legislativa (acesso em 26/10/2026)
- Bets começam a sair do ar nesta terça-feira (Agência Brasil, 06/10/2026) — O Povo / Agência Brasil (acesso em 26/10/2026)
- Meu SUS Digital oferecerá até 100 mil teleatendimentos mensais para pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas (agosto de 2026) — Agência Gov — Ministério da Saúde (acesso em 26/10/2026)
- Gambling — fact sheet — Organização Mundial da Saúde (acesso em 26/10/2026)
- Psychological therapies for pathological and problem gambling (Cochrane Database of Systematic Reviews, 2012) — Cochrane — Cowlishaw, Merkouris, Dowling, Anderson, Jackson e Thomas (acesso em 26/10/2026)
