Saúde emocional

Mudar de país também é uma perda — e quase ninguém chama assim

A pergunta que mais aparece não é “por que não deu certo”. É “por que ainda pesa, se deu certo?”. A resposta tem a ver com uma conta de perdas que ninguém fez em voz alta.

Cesar Coutinho, psicólogo

Por Cesar Coutinho • Psicólogo • CRP 06/223499

2 min de leitura • Publicado em 21 de setembro de 2026

Pessoa de costas junto à janela de um apartamento, falando ao telefone, com vista para uma cidade estrangeira ao entardecer

Existe um tipo de sofrimento que quase não encontra escuta, porque a própria pessoa considera que não tem direito a ele. Você saiu do Brasil por escolha, o trabalho é melhor, a rua é mais segura, a vida funciona. E ainda assim há uma sensação difícil de nomear — que não é arrependimento, não é tristeza exatamente, e aparece com mais força em datas, em ligações de vídeo e em domingos à tarde.

Resposta rápida

Mudar de país envolve várias perdas ao mesmo tempo — família e amigos, idioma, cultura, casa, posição social — e a literatura descreve esse processo como semelhante a um luto, inclusive quando a migração foi voluntária e deu certo. O desconforto não é sinal de que a decisão foi errada. É a conta de perdas que ninguém reconheceu como perdas.

Por que pesa mesmo quando a mudança deu certo?

Porque sucesso e perda não se cancelam. É possível estar satisfeito com a decisão e, ao mesmo tempo, ter perdido coisas que não voltam — e as duas afirmações continuam verdadeiras lado a lado.

O que complica é a régua que a própria pessoa usa. Quem emigrou por escolha costuma se cobrar gratidão, e transforma qualquer desconforto em ingratidão. A partir daí o assunto fica sem lugar: não se fala com a família no Brasil, para não preocupar nem parecer arrependido; e não se fala com quem está por perto, porque exige explicar um mundo inteiro antes.

O que exatamente se perde numa mudança de país

Uma revisão publicada no Brazilian Journal of Psychiatry descreve a migração como “um processo semelhante ao luto, no qual o indivíduo se afasta da família e das pessoas queridas; da sua língua, cultura, país, status social”. A palavra luto aparece ali não como metáfora bonita, mas como descrição do mecanismo: perde-se algo real, e o psiquismo faz com isso o que faz com perdas.

Um estudo publicado na revista Saúde e Sociedade é ainda mais específico ao afirmar que “o processo migratório constitui em si um factor de risco, na medida que reúne sete elementos de perda: da família e dos amigos, da língua, da cultura, da casa”. Note o que essa lista tem de incômodo: nenhum desses itens costuma ser tratado como perda legítima quando a mudança foi voluntária.

  • A rede de apoio, que não se reconstrói por decretoAmizades de vinte anos não têm substituto de um ano. O que existe no início não é solidão exatamente — é a ausência de gente que já sabe quem você é.
  • O idioma como parte de quem você éFuncionar bem em outra língua não é o mesmo que ser você naquela língua. Humor, ironia, carinho e discussão são as últimas coisas a chegar.
  • A posição socialProfissão, sobrenome, referência, história — coisas que no Brasil dispensavam explicação e que fora não significam nada. Recomeçar a ser explicado cansa.

Existe risco maior de adoecer?

A Organização Mundial da Saúde afirma que “a prevalência de transtornos mentais comuns, como depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático, tende a ser mais alta entre migrantes e refugiados do que entre as populações de acolhimento”.

Mas a parte mais útil dessa literatura não é o risco em si — é o que o produz. A própria OMS aponta que “experiências de racismo e discriminação estão consistentemente associadas a desfechos negativos de saúde mental”, e que insegurança de renda, emprego, moradia e situação legal aparecem ligadas de forma consistente a pior saúde mental. O relatório também registra que o apoio familiar e comunitário “pode ser rompido pela migração”.

Luto migratório e “síndrome de Ulisses”: o que é sério e o que é rótulo

Luto migratório é uma descrição com lastro: é o nome dado ao conjunto de perdas simultâneas que a mudança de país produz, e aparece descrito em literatura revisada por pares.

Já a chamada “síndrome de Ulisses” merece cuidado. É um construto proposto por um autor específico, e a mesma revisão que a descreve registra que ela “pertenceria mais ao campo da saúde mental do que à psicopatologia propriamente dita, já que os imigrantes não necessariamente sofrem de doença mental”. Ela não consta do DSM nem da CID. E há crítica acadêmica direta ao termo: um artigo publicado na Saúde e Sociedade argumenta que “a Síndrome de Ulisses traduz os conflitos sociais em idiomas psicopatológicos, desviando a atenção do contexto político e económico mais amplo”.

A mesma crítica resume o risco em uma frase: “A medicalização da condição de imigrante é um dos problemas mais sérios dos programas terapêuticos de saúde mental destinados a estes pacientes.”

A consequência prática é simples: um nome pode ajudar a organizar a experiência, mas transformar a condição de imigrante em diagnóstico não ajuda ninguém — e desloca para dentro da pessoa um problema que em boa parte é de contexto.

Melhora com o tempo?

Aqui este texto vai fazer algo que textos sobre o tema costumam evitar: dizer que não se sabe.

Circula com força a ideia de uma curva previsível — encantamento no começo, queda no segundo ano, recuperação depois. É uma narrativa organizada e satisfatória, e eu não encontrei fonte verificável que a sustente. O que existe é mais fraco e mais ambíguo: um estudo transversal conduzido no Chile observou que a vantagem inicial de saúde de imigrantes “declina ao longo do tempo no caso dos transtornos de humor”, associando mais tempo de residência a mais transtornos de humor. Os próprios autores admitem que o achado pode refletir maior acesso a diagnóstico, e não piora real — e o desenho do estudo não permite afirmar causa.

Em direção oposta, a revisão do Brazilian Journal of Psychiatry registra que o risco de transtorno de estresse pós-traumático em populações migrantes diminui ao longo das gerações.

O que ajuda

As mesmas fontes que descrevem o risco descrevem o que protege, e há uma consistência útil entre elas.

O que aparece de forma consistente nas fontes

  • Pertencer a uma comunidade que compartilha a mesma origem — a OMS associa isso a taxas menores de transtornos mentais
  • Construir vínculo local de verdade, e não apenas convivência funcional de trabalho
  • Manter laços familiares ativos, com contato que não seja só relatório de que está tudo bem
  • Reduzir a barreira de idioma no acesso a serviços de saúde, que a OMS aponta como motivo real de pessoas não buscarem cuidado
  • Tratar insegurança de renda, moradia e situação legal como questão de saúde, porque a literatura as associa a pior saúde mental

Vale sublinhar o terceiro item. Ligação de vídeo em que se combina apenas que está tudo bem mantém o vínculo formal e não alimenta nada. O que sustenta é conversa comum — o chato, o irritante, o engraçado do dia.

Terapia em português faz diferença?

Provavelmente sim, mas é preciso dizer por qual motivo, porque a razão correta é diferente da que se costuma ouvir.

Não há evidência de que a psicoterapia conduzida no idioma nativo produza, por si, melhor resultado clínico. O que as fontes sustentam é outra coisa, e é suficiente: a OMS aponta a barreira de idioma como motivo pelo qual pessoas deixam de buscar cuidado, e a revisão do Brazilian Journal of Psychiatry observa que uma avaliação conduzida por alguém do mesmo contexto cultural aumenta o conforto e a acurácia.

Em termos práticos: o ganho está em não precisar traduzir a própria vida antes de começar. Explicar o que é uma casa cheia no domingo, por que a ausência em um velório específico ainda dói, o que significa o tom de voz de uma mãe ao telefone — tudo isso consome sessões quando precisa ser contextualizado.

Perguntas frequentes

Como este conteúdo foi elaborado

Texto educativo baseado em relatórios da Organização Mundial da Saúde sobre saúde mental de migrantes e refugiados, em revisão publicada no Brazilian Journal of Psychiatry e em artigo publicado na revista Saúde e Sociedade. Fontes consultadas em 21 de setembro de 2026. A hipótese popular de uma curva previsível de adaptação foi verificada e não encontrou respaldo; por isso não é afirmada neste texto.

Fontes

  1. Five key themes for improved mental health care for refugees and migrants — Organização Mundial da Saúde (acesso em 21/09/2026)
  2. Mental health of refugees and migrants: risk and protective factors and access to care — Organização Mundial da Saúde (acesso em 21/09/2026)
  3. Stress, trauma, and posttraumatic stress disorder in migrants: a comprehensive review — Brazilian Journal of Psychiatry (acesso em 21/09/2026)
  4. Identidades em crise: imigrantes, emoções e saúde mental em Portugal — Saúde e Sociedade (acesso em 21/09/2026)
  5. Estudo sobre o efeito do imigrante saudável e transtornos de humor — Frontiers in Public Health (acesso em 21/09/2026)
  6. Ligue 188 — Centro de Valorização da Vida (acesso em 21/09/2026)

Autoconhecimento

Observe como a mudança tem aparecido no seu dia

Explore conteúdos de reflexão sobre emoções, rotina e bem-estar.

Ferramenta de autoconhecimento. Não realiza diagnóstico e não substitui avaliação profissional.

Cesar Coutinho, psicólogo

Cesar Coutinho

Psicólogo • CRP 06/223499

Cesar Coutinho é psicólogo, CRP 06/223499, com atuação em Terapia Cognitivo-Comportamental. Atende presencialmente em Indaiatuba-SP e on-line para todo o Brasil e para brasileiros que vivem no exterior.

Conheça minha trajetória

Se ficou difícil explicar a própria vida em outra língua

Uma conversa inicial em português pode ajudar a organizar o que está pesando, sem precisar contextualizar tudo antes.

Agendar uma conversa Atendimento com horário agendado. Este canal não realiza atendimento de emergência.
Cesar Coutinho, psicólogo
Cesar Coutinho Psicólogo
🧠

Antes de sair...

Sua jornada de autoconhecimento pode transformar muitos aspectos da sua vida.

Sobre o que você gostaria
de se conhecer melhor?

ou