Vocês estão no mesmo sofá. Você começa a contar como foi o dia, mas recebe um “estou ouvindo” sem que o outro tire os olhos da tela. A conversa continua por alguns segundos, até que uma nova notificação interrompe tudo.
Phubbing é deixar alguém em segundo plano enquanto se presta atenção ao celular. O termo descreve uma atitude, não um transtorno, e um episódio isolado costuma ser só distração. O que pesa é a repetição: um estudo publicado em 2016 na revista Computers in Human Behavior encontrou associação entre perceber esse comportamento no parceiro, conflitos por causa do celular e menor satisfação com a relação. É um achado correlacional — não prova que o aparelho, sozinho, cause o problema.
Uma situação isolada pode ser apenas uma distração. Quando se repete, porém, pode surgir uma pergunta difícil: ainda existe espaço para nós no meio de tantas coisas que disputam nossa atenção?
Esse comportamento tem um nome, e conhecê-lo ajuda a conversar sobre o que está acontecendo sem transformar um hábito em diagnóstico nem concluir, de imediato, que o afeto acabou. Este texto foi publicado em 14 de setembro de 2026.
O que é phubbing?
Phubbing é o comportamento de deixar alguém em segundo plano enquanto se presta atenção ao celular. No relacionamento, aparece quando a pessoa consulta a tela repetidamente durante uma conversa ou interrompe momentos compartilhados para acompanhar notificações.
O termo descreve uma atitude, não um transtorno. Também não significa que qualquer uso do aparelho na presença do parceiro seja um problema. Trabalhar, resolver uma urgência e responder a uma mensagem importante fazem parte da vida.
O contexto, a frequência e a forma como o casal lida com essas interrupções ajudam a compreender quando a situação começa a causar incômodo.
O que acontece com a conversa quando a tela recebe toda a atenção?
Por que a discussão pode ir além do celular?
Porque a mesma cena pode ter dois significados. Para quem tenta conversar, a tela pode ganhar o sentido de rejeição: “o que eu digo não importa”. Para quem está com o aparelho na mão, aquele momento pode significar descanso ou a necessidade de resolver algo. As duas leituras convivem na mesma sala.
Um estudo de James Roberts e Meredith David, publicado em 2016 na revista Computers in Human Behavior, investigou esse fenômeno com 308 adultos numa primeira etapa e 145 na segunda, nos Estados Unidos. Os autores encontraram que perceber o comportamento no parceiro tem efeito positivo sobre o conflito por causa do celular, e que esse conflito, por sua vez, tem efeito negativo sobre a satisfação com o relacionamento.
Em vez de tentar adivinhar a intenção do outro, costuma ser mais útil descrever o que aconteceu e explicar como você viveu aquela situação.
Distração ocasional ou um padrão?
Mais do que contar minutos de tela, observe como ela participa da convivência. Algumas perguntas ajudam a organizar a conversa.
Perguntas para observar a rotina de vocês
- 1As conversas costumam ser interrompidas antes de terminar?
- 2Há momentos em que os dois conseguem estar juntos sem consultar o aparelho?
- 3Quando alguém pede atenção, esse pedido é escutado?
- 4Os combinados sobre o celular valem para os dois?
- 5É possível falar sobre o incômodo sem que tudo se transforme em discussão?
Como falar sem começar uma disputa
Escolha um momento em que os dois possam conversar. Começar no meio de uma tarefa urgente, ou quando ambos já estão irritados, costuma dificultar a escuta.
Procure falar de uma situação específica, do que sentiu e do que gostaria de combinar. Expressões como “você nunca liga para mim” deslocam a conversa para uma disputa sobre quem está certo.
Quando eu estava contando sobre meu dia e você continuou olhando o celular, senti falta da sua atenção. Podemos reservar um momento para conversar sem interrupções?
Depois de falar, escute a resposta. O objetivo é compreender a dificuldade e construir um acordo possível, com espaço para as necessidades dos dois.
Pequenos combinados, feitos pelos dois
O acordo não precisa eliminar o celular da rotina. Pode começar por um momento de convivência que faça sentido para vocês.
Combinados que costumam funcionar
- Escolher uma refeição ou um breve período do dia para conversar sem telas.
- Avisar quando houver uma demanda urgente e combinar quando retomar a conversa.
- Reduzir notificações dispensáveis durante os momentos compartilhados.
- Perguntar se o outro está disponível antes de iniciar um assunto importante.
- Rever o combinado quando ele não funcionar, considerando a rotina de ambos.
Quando vale buscar apoio psicológico?
Quando o afastamento e os conflitos continuam mesmo depois de tentativas de diálogo, pode ser útil procurar apoio psicológico para compreender o que se repete na relação.
O celular pode fazer parte da dificuldade, mas a conversa também costuma revelar expectativas diferentes, sobrecarga e necessidades que ainda não encontraram espaço.
Estar presente não exige disponibilidade o tempo todo. Exige a possibilidade de conversar sobre quando e como vocês podem se encontrar de verdade. Em quais momentos você mais sente falta de atenção no relacionamento?
Perguntas frequentes
É o comportamento de deixar alguém em segundo plano enquanto se presta atenção ao celular. A palavra junta os termos em inglês para telefone e desprezar. Descreve uma atitude na convivência, não um transtorno nem um diagnóstico.
Não. Trabalhar, resolver uma urgência ou responder a uma mensagem importante fazem parte da vida. O que costuma incomodar é a repetição das interrupções e a sensação de que não há espaço para a conversa — não o uso em si.
Não é o que a pesquisa mostra. O estudo de Roberts e David (2016) é correlacional: encontrou associação entre perceber esse comportamento no parceiro, conflitos por causa do celular e menor satisfação com a relação. Associação não é causa, e conflitos de casal costumam envolver muito mais do que o aparelho.
Escolha um momento em que os dois possam conversar, descreva uma situação específica, diga o que sentiu e proponha um combinado. Falar do episódio concreto tende a funcionar melhor do que frases como “você nunca me dá atenção”, que deslocam a conversa para uma disputa.
Presença e privacidade não são a mesma coisa. Construir atenção não exige fiscalizar mensagens, acessar contas ou compartilhar senhas. Acordos baseados em controle costumam aumentar o conflito em vez de reduzi-lo.
Como este texto foi escrito
O achado de pesquisa citado vem do estudo de James Roberts e Meredith David publicado em 2016 na revista Computers in Human Behavior, consultado em 14 de setembro de 2026 pela página de divulgação do Keller Center da Baylor University. O estudo é correlacional e foi conduzido nos Estados Unidos. O texto não substitui atendimento e não afirma nada sobre quem o lê.
Fontes
- Partner Phubbing: How Cell Phones Impact Romantic Partnerships — divulgação do estudo de Roberts e David (Computers in Human Behavior, 2016) — Keller Center for Research, Baylor University — Estados Unidos (acesso em 31/12/1969)
- My life has become a major distraction from my cell phone: Partner phubbing and relationship satisfaction among romantic partners (DOI 10.1016/j.chb.2015.07.058) — Computers in Human Behavior — Roberts, J. A. & David, M. E., 2016 (acesso em 31/12/1969)
