Adolescência e família

Meu filho se machuca de propósito. O que isso quer dizer?

Descobrir uma autolesão assusta. Uma resposta calma, acolhedora e orientada para ajuda pode abrir espaço para o adolescente falar sobre o que está vivendo.

Cesar Coutinho, psicólogo

Por Cesar Coutinho • Psicólogo • CRP 06/223499

7 min de leitura • Publicado em 17 de setembro de 2026

Mãe e filho adolescente conversam com calma em uma sala iluminada pela luz natural.

Descobrir que um filho está se machucando de propósito pode provocar medo, culpa, raiva e uma urgência enorme de fazer aquilo parar. Antes de reagir, vale respirar e lembrar: o comportamento aponta para sofrimento, não para falta de caráter. A primeira tarefa do adulto é proteger, escutar e aproximar o adolescente de uma avaliação profissional.

Resposta direta

Autolesão é um comportamento intencional de causar dano ao próprio corpo, geralmente sem intenção de morrer. Ela não é o mesmo que tentativa de suicídio, mas é um marcador de risco que exige avaliação cuidadosa. A reação do adulto na primeira conversa pode favorecer a confiança ou ampliar o silêncio. Acolher sem punir e buscar ajuda são os passos mais seguros.

Se houver risco imediato à vida, procure o SAMU pelo 192 ou a emergência mais próxima. Em sofrimento emocional intenso ou pensamentos de morte, o CVV atende pelo 188, 24 horas e sem custo de ligação. CAPS e CAPSi são portas de cuidado no SUS; em violação de direitos de criança ou adolescente, o Disque 100 recebe denúncias. O WhatsApp e o formulário deste site são canais de agendamento e não atendem emergências.

O que é autolesão, e o que ela não é?

Autolesão é um termo clínico para um comportamento deliberado de ferir o próprio corpo. Quando ocorre sem intenção suicida, pode ser chamada de autolesão não suicida. A palavra descreve um comportamento, não uma identidade: o adolescente não deve ser reduzido ao episódio nem rotulado por ele. Também não é adequado presumir que se trata de manipulação, moda, frescura ou simples busca por atenção.

A autolesão pode aparecer em contextos muito diferentes. Por isso, uma observação isolada não explica o que está acontecendo, não determina um diagnóstico e não permite concluir a causa. O que ela sinaliza é a necessidade de compreender o sofrimento, o contexto familiar e escolar, as relações, as emoções e outros fatores relevantes para aquele adolescente.

Autolesão é tentativa de suicídio?

Perguntar com clareza se existem pensamentos de morte não coloca a ideia na cabeça do adolescente. A conversa deve ser direta, serena e sem interrogatório. Se houver resposta afirmativa, dúvida importante, despedidas, impossibilidade de garantir segurança ou risco atual, o caminho é buscar atendimento de urgência. A prioridade é presença e acesso ao cuidado, não arrancar uma promessa de que isso nunca acontecerá novamente.

Por que um adolescente faz isso?

Não existe uma única explicação. A autolesão pode estar associada a dificuldades para reconhecer e comunicar emoções, conflitos, isolamento, bullying, experiências traumáticas, sofrimento psíquico ou sensação de não ter a quem recorrer. Em alguns casos, há condições de saúde mental; em outros, a avaliação revela combinações particulares de estresse, vulnerabilidades e relações. Nenhuma hipótese deve ser tratada como diagnóstico antes de uma escuta profissional.

A Sociedade Brasileira de Pediatria informou que, em 2023 e 2024, houve média de 137 atendimentos diários de adolescentes de 10 a 19 anos por autoagressão e tentativa de suicídio — aproximadamente um a cada dez minutos. A entidade também alerta para subnotificação, portanto a dimensão real pode ser maior. O dado reúne situações diferentes e não deve ser usado para explicar um caso individual; ele mostra a relevância de uma resposta pública e familiar responsável.

A pergunta mais útil não é ‘como faço isso parar agora?’, mas ‘como posso ajudar este adolescente a falar e chegar ao cuidado de que precisa?’

O que fazer na primeira conversa — e o que evitar?

Escolha um momento com alguma privacidade e diga o que percebeu sem acusar. Tente manter o tom estável, mesmo que esteja assustado. Escute mais do que fala, reconheça que pode ser difícil contar e agradeça a confiança. O objetivo inicial não é obter todos os detalhes: é deixar claro que o adolescente não ficará sozinho e que vocês buscarão ajuda juntos.

Perguntas que abrem espaço para conversar

  1. 1Há quanto tempo você vem se sentindo assim?
  2. 2O que costuma estar acontecendo antes de esse sofrimento aumentar?
  3. 3Em quais momentos fica mais difícil lidar com o que você sente?
  4. 4Você tem pensado em morrer ou em não querer mais estar aqui?
  5. 5Quem é uma pessoa segura com quem você consegue conversar?
  6. 6Como posso ficar perto de você e ajudar agora?

Evite punição, sermão, ameaça, ultimato, comparação com outros jovens ou cobrança por uma promessa de parar. Não transforme a casa em um ambiente de vigilância constante, nem faça da retirada de objetos a única resposta. Medidas de segurança podem integrar um plano definido com profissionais, mas não substituem avaliação, escuta e acompanhamento. Preserve a privacidade do adolescente e compartilhe informações somente com quem precisa participar do cuidado.

A escola é obrigada a comunicar?

Sim. A Lei 13.819/2019 instituiu a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio e tornou compulsória a notificação desses casos. Pelo artigo 6º, estabelecimentos de ensino notificam o conselho tutelar; serviços de saúde notificam as autoridades sanitárias e, quando envolve criança ou adolescente, também o conselho tutelar. A lei determina caráter sigiloso para a notificação e obriga quem a recebe a preservar o sigilo.

Essa comunicação tem função de proteção e vigilância em saúde; buscar avaliação não significa denunciar o filho ou culpá-lo. A articulação entre família, escola e rede de cuidado pode ajudar, desde que ocorra com discrição e foco nas necessidades do adolescente. Este texto descreve a regra geral e não oferece orientação jurídica para situações específicas.

Como é a avaliação e o que a terapia trabalha?

A avaliação psicológica procura entender o comportamento dentro da história do adolescente, identificar riscos atuais, recursos de proteção, relações importantes e fatores que mantêm o sofrimento. Conforme a necessidade, pode haver articulação com responsáveis, escola e outros profissionais de saúde. O processo deve respeitar o desenvolvimento, a autonomia possível e os limites éticos de confidencialidade, explicados à família desde o início.

Na psicoterapia, o trabalho pode incluir reconhecimento e regulação de emoções, comunicação, resolução de problemas, construção de estratégias seguras para momentos críticos e fortalecimento de vínculos. A participação dos responsáveis pode ser importante para melhorar a escuta e reorganizar respostas familiares. Não existe prazo universal nem garantia de resultado: o plano é individual e pode ser revisto conforme a avaliação.

Quando procurar ajuda imediatamente?

Procure atendimento imediato quando houver risco à vida, intenção atual de morrer, plano suicida, incapacidade de permanecer em segurança, alteração intensa do estado mental ou necessidade de cuidado físico urgente. Nesses casos, não deixe o adolescente sozinho e acione o SAMU 192 ou a emergência mais próxima. Se a situação não for imediata, ainda assim organize uma avaliação profissional o quanto antes.

Para sofrimento emocional intenso ou pensamentos de morte, o CVV oferece escuta pelo 188, 24 horas e gratuitamente. A rede pública inclui UBS, CAPS e CAPSi, conforme a organização do município. Violação de direitos pode ser comunicada ao Disque 100. Esses canais têm funções diferentes: nenhum atendimento de agendamento particular substitui um serviço de urgência.

Perguntas frequentes

Como este conteúdo foi elaborado

Texto educativo construído com base em fontes oficiais e institucionais, revisão de linguagem segura e separação explícita entre autolesão não suicida e comportamento suicida. As referências foram consultadas em 17 de setembro de 2026.

Fontes

  1. A cada 10 minutos, o Brasil registra um atendimento de adolescente por autoagressão — Sociedade Brasileira de Pediatria (acesso em 17/09/2026)
  2. Lei nº 13.819, de 26 de abril de 2019 — Presidência da República (acesso em 17/09/2026)
  3. Ligue 188 — Centro de Valorização da Vida (acesso em 17/09/2026)
  4. Self-harm — NHS (acesso em 17/09/2026)
  5. Suicídio: informando para prevenir (cartilha) — Associação Brasileira de Psiquiatria (acesso em 17/09/2026)

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Cesar Coutinho, psicólogo

Cesar Coutinho

Psicólogo • CRP 06/223499

Cesar Coutinho é psicólogo, CRP 06/223499, com atuação em Terapia Cognitivo-Comportamental e acompanhamento de adolescentes. Atende presencialmente em Indaiatuba-SP e on-line para todo o Brasil.

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